"O que é o Santo Daime"
O QUE É O SANTO DAIME
- Da Consciência
de nossa dupla Simbiose
Marcelo Bolshaw Gomes ([1])
(Marcelo Bolshaw Gomes é jornalista, doutor em Ciências Sociais e
professor de Comunicação da UFRN, se fardou no São João de 1986 no Céu do Mar
(Rio de Janeiro) e já participou de diversas igrejas, inclusive na Cinco Mil
(Rio Branco) e a Igreja do Céu do Mapiá. Atualmente, reside em Natal e é
fardado da Igreja de Canoa Quebrada (CE)).
Conta uma lenda indígena norte-americana que, nos
primórdios da história da terra, houve uma grande conferência de todos animais
existentes, em protesto contra a atitude devastadora e ignorante do Homem
diante do meio ambiente. "A natureza é a grande mãe de todos os bichos e o
homem deseja submete-la aos seus caprichos" - denunciou a serpente,
cobrando uma atitude de todos.
"A única forma é fazê-lo sentir na própria pele o efeito de seus
atos, mesmo que isso leve muitas gerações" - ponderou o coiote. E assim,
ficou decidido que cada animal se transformaria em uma doença humana: o leão
seria os males do coração; o elefante, a obesidade; os eqüinos, as doenças de
pele. E quanto mais o Homem destruísse a Natureza, mais ele seria vítima da
vingança dos espíritos animais, na forma de doenças.
Segundo a lenda, então, o mundo vegetal sentiu compaixão pelo Homem e
decidiu ajudá-lo. E as plantas se transformaram em remédios, uma para cada tipo
de doença gerada pelos instintos animais. Às plantas mais nobres, no entanto,
foi dada a missão de despertar a consciência, para que um dia o Homem
aprendesse a viver em harmonia com a terra e cumprisse seu destino.
Então, certa vez, dentro de um trabalho espiritual, perguntei ao Daime: “O que
é o Daime?” – na esperança de que ele fosse capaz de me explicar sua natureza e
como ela se encaixa em nossa história. E ninguém melhor que ele próprio para me
explicar quem e o que ele é e significa.
Em resposta à minha indagação, comecei a perceber as
diferentes pessoas que participam do trabalho e as concepções que elas tinham
do que estavam fazendo ali. Encontrei, assim, cinco definições diferentes: o
daime é uma bebida; o daime é uma religião; o Daime é uma doutrina; o Daime é
um Ser Divino e o Daime é um Sacramento.
As duas primeiras definições (o daime é uma bebida e o
daime é uma religião) eram dos visitantes e as três últimas (o Daime é uma
doutrina, o Daime é um Ser Divino e o Daime é um Sacramento) eram de
‘fardados’, isto é, de adeptos que utilizam o uniforme do culto.
Vejamos cada uma dessas concepções.
‘O Santo Daime é uma bebida’ é uma
usual concepção entre os ex-usuários de drogas que buscam o culto, como também
curiosos em geral. É a definição daqueles que procuram a viagem. A bebida em
questão é preparada através da infusão do cipó do Jagube ou Mariri
(Banisteriopsis caapi) e da folha da Rainha ou Chacrona (Psycotria viridis) -
naturais da região amazônica. A bebida teria origem do Império Inca e seu uso
teria se difundido entre várias tribos indígenas, como as dos Kampas e dos
Kaxinawás, localizadas perto da fronteira com o Peru e a Bolívia. Ingerindo o
chá, os índios absorvem o espírito da planta e, em transe, têm experiências
psíquicas e vivenciam fenômenos paranormais, tais como a telepatia, a regressão
a vidas passadas, contatos com os espíritos dos seus antepassados mortos,
presciência e visão à distância. Há relatos de xamãs usavam a bebida para
descobrir qual era a doença de seus pacientes e saber como tratá-la. ([2])
“A
Ayahuasca amplifica a capacidade psicossomática de responder a gradações mais
sutis de estímulos além de muitas vezes integrar as diversas faculdades
sensoriais em processos sinestésicos. Esse efeito de aumentar a capacidade de
experienciar, de avaliar e apreciar por si mesmo, é central para a compreensão
do seu significado. Esta amplificação, como uma lupa, permite uma (re)visitação
intensiva e absorta dos conteúdos mentais - recordações, idéias, fantasias,
pensamentos, emoções, medos, esperanças, sensações em gerais. (...) O grande
valor da Ayahuasca, trazidos à nossa atenção pelas sociedades indígenas, é que
ela dissolve os limites da mente inconsciente; ela dá acessos aos conteúdos
reprimidos e esquecidos. Ela possibilita o reconhecimento das configurações
universais da psique, os arquétipos de humanidade, junto com um leque mais
abrangente de conhecimentos e maneiras de conscientizar, até eventualmente a
vivência dos diversos aspectos da união mística. Na medida em que o indivíduo
consegue ver as coisas de uma maneira não distorcida, vendo claramente não
apenas o seu passado mais também a presunção e cegueira da sua própria cultura
e grupos de referencias, ele necessita, além de tolerar a decepção e o
sofrimento, superar sentimentos de desamparo. Nem sempre é fácil ter de ver e
aceitar que não somos assim tão vítimas, mas sim responsáveis pelas nossas
vidas; aceitar ser capaz, reconhecer o seu potencial e a responsabilidade que
isso requer implica coragem e determinação.”
(BARBIER, 2002)
Já ‘o Santo Daime é uma religião’ é uma concepção de um visitante
mais espiritualizado que busca a experiência de expansão da consciência.
Geralmente, são pessoas que participam ou já participaram de outros trabalhos
espirituais. Desde o início do século, nos contatos culturais entre
seringueiros e índios, a Ayahuasca passou a ser usada pelos migrantes
nordestinos, que colonizaram a Amazônia ocidental. Destes contatos surgiram
diversos grupos que associaram o uso da bebida a um contexto religioso
cristão-espírita, dos quais a União do Vegetal, no estado de Rondônia, o Santo
Daime e a Barquinha, no Acre, são os maiores expoentes.
Paralelamente ao crescimento dos cultos e à expansão do uso religioso da
Ayahuasca, uma forte resistência dos setores conservadores da sociedade
brasileira se formou, pressionando o governo para embargar o funcionamento
destas instituições nos grandes centros metropolitanos. Porém, no dia dois de
junho de l992, o conselho decidiu liberar definitivamente a utilização do chá
para fins religiosos em todo o território nacional. Segundo a então presidente
do Conselho Federal de Entorpecentes (Confen), Ester Kosovsky, “a investigação,
desenvolvida desde l985, baseou-se numa abordagem interdisciplinar, levando em
conta o lado antropológico, sociológico, cultural e psicológico, além de
análises fito químicas”.[([3])
O relator do processo de investigação, Domingos Carneiro de Sá, explicou
que o fato fundamental para a liberação da bebida foi o comportamento dos
daimistas e a seriedade dos centros que utilizam o chá em seus rituais:
“Não foram observadas atitudes anti-sociais dos participantes dos cultos,
ao contrário, podemos constatar os efeitos integrados e reestruturantes do
Daime com indivíduos que antes de participarem dos rituais apresentavam
desajustes sociais ou psicológicos”. (SILVA SÁ, 1996, 145-174)
Com a expansão do Daime para outros países, surgiram questões
jurídicas internacionais referentes à utilização e ao transporte da bebida.
Dentre os vários processos de legalização, uma referência importante é o texto Religious Freedom and United States Drug
Laws: Notes on the UDV-USA Legal Case. (MEYER, 2005). E o site do Santo Daime na Itália também disponibiliza uma
página com literatura jurídica internacional ([4]).
‘O Santo Daime é uma doutrina’
é uma concepção que enfatiza justamente esse aspecto de cultura popular
acreana, de patrimônio cultural (músico, poético e espiritual) brasileiro. Os
partidários dessa concepção dão bastante importância ao ritual, ao calendário
litúrgico e aos ensinos éticos prescritos nos hinos, como também à memória
histórica dos fundadores do culto ([5]).
Os hinos, cantados no decorrer da noite, são recebidos mediunicamente e
ensaiados com antecedência para a apresentação durante o ritual. As idéias
básicas transmitidas pelos hinos são as de solidariedade e consciência
ecológica - trovas poéticas entoada em melodias simples e repetitivas, que
funcionam como ‘mantras’.
Além do canto, há também uma dança - chamada de “bailado” - que consiste em
deslocar o corpo no compasso da música, em conjunto com todos, para a direita e
para a esquerda de forma alternada, em uma espécie de ‘ciranda estática’. Esta
corrente de voz e movimento é ritmada por maracás, pequenos chocalhos de lata.
Os participantes se posicionam em filas formando um quadrilátero, com as moças
e as mulheres de um lado e os homens e rapazes do outro, ao redor de uma mesa.
Nas festas oficiais, os homens usam ternos brancos e gravatas azuis, e as
mulheres, camisa e saia branca com uma jardineira verde com fitas coloridas e
usam uma coroa prateada.
Ao centro, o Santo Cruzeiro (a cruz de caravaca) e a Estrela do Oriente (o
selo de Salomão com uma águia sobre uma lua minguante).
Além de Jesus Cristo ser freqüentemente
sincretizado com o Sol, a Virgem Maria é associada à Lua, ao Mar e à Floresta,
e as presenças de São João Batista e do Patriarca São José são constantemente
lembradas nas canções do Santo Daime. Outra imagem freqüente é a do “Divino Pai
Eterno”, afirmação do princípio monoteísta da doutrina, que impera sobre uma
“Corte Celestial de Todos os Seres Divinos” - que engloba, no manto panteísta
da Rainha da Floresta, entidades que vão dos Devas Orientais aos Orixás
africanos. Porém, a entidade central do ritual do Santo Daime é Juramidam, o
“Mestre Império”. Este ser é quem, segundo os hinos e os participantes do
culto, preside os rituais e é identificado como o próprio espírito da bebida
ingerida nas cerimônias.
O efeito da bebida do Santo Daime promove uma expansão na consciência que,
sem a perda da capacidade de ação voluntária, permite que se observe o próprio
sentimento e pensamento com maior clareza. No decorrer do ritual, o estado de
consciência intensificada pelo chá amplifica as situações recorrentes da vida
cotidiana, revelando contradições existenciais e processos interiores que se
repetem inconscientemente em diversos níveis. Esses processos involuntários são
compreendidos pela consciência intensificada dos participantes, através da
corrente formada pelo bailado e pelos hinos, que sugerem sempre uma solução
positiva para os problemas. Segundo os participantes do culto, o ritual é “uma
auto-análise”. O processo vivido sobre o efeito da bebida, abrindo as portas do
subconsciente e ação condicionante do hinário (hinos + bailado) leva a um exame
crítico de nossas ações cotidianas, com base nos princípios cristãos.
A concepção que acredita que “o
Santo Daime é um Ser Divino” é aquela que acredita no poder da bebida
independente do ritual (e do sistema de crenças, embora ela também seja parte
do sistema de crenças) que acredita se comunicar diretamente com o espírito da
planta ou com uma inteligência superior à humana.
Essa concepção tem diferentes versões e
estilos. Os mais tradicionalistas, por exemplo, personificam na figura de seu
criador, Raimundo Irineu Serra ([6]). Ele
representa o retorno de Cristo à terra e quando se toma o Daime (geralmente
diante de uma grande foto do Mestre Irineu) é com o espírito de Raimundo Irineu
Serra que cada consciência dialoga. Em outras linhas, como a do Padrinho
Sebastião, também há adeptos da concepção de que o Santo Daime é um ser divino,
mas em um paradigma mais amplo e panteísta: “o mestre está no sol, na lua e nas
estrelas”. Essa concepção de ‘bebida mestra’ também aparece diferentes tipos de
xamanismo e em outros rituais e sistemas de crenças, como na UDV.
É preciso dizer que, enquanto o
processo de legalização do culto teve a participação decisiva dos partidários
da ‘Doutrina’, todo processo de globalização do uso da bebida (de miscigenação
com outras culturas espirituais) se deve principalmente aos adeptos do ‘Ser
Divino’.
E o Daime é um Sacramento? Esta forma de pensar é mais abrangente e
inclui as quatro concepções anteriores. A comunicação com o divino não se dá
apenas pelos hinos ou com um único ser, mas através de várias inteligências,
espíritos, guias, arquétipos; e, principalmente, com o foco da atenção voltado
para desprogramação da consciência.
Pode-se dizer que as pessoas que pensam
‘o Santo Daime é uma doutrina’ e as pessoas que pensam ‘é um ser divino’
representam as mesmas ênfases dos que pensam ‘o Daime é um bebida’ e ‘é uma
religião’ em uma oitava superior. Os que pensam que ele é uma bebida ‘evoluem’
para a posição que ele é um ser divino; enquanto os que acreditam que se trata
de uma religião passam a entendê-lo como uma doutrina espírita ou como um culto
cristão. A concepção que entende o Santo Daime como um Sacramento é aquela que
entende a importância dos dois lados, tanto da bebida como do sistema de
crenças, mas seu foco é o desenvolvimento da consciência.
Sempre pensei em escrever um texto
sobre o Daime. E até fiz um texto bem descritivo, mas sempre problematizava
nada. Eu queria escrever um texto para registrar a experiência espiritual que
modificou minha vida radicalmente. Um testemunho subjetivo de um sujeito
apaixonadamente envolvido com seu objeto, mas que procura entendê-lo da forma
mais objetiva possível.
Há vários obstáculos para essa
‘objetivação’. Em primeiro lugar, é preciso entender que o Santo Daime é uma
‘leitura’ da ayahuasca. A mesma bebida é utilizada em outros sistemas de
crenças, em outros rituais, como no caso da UDV e da Ayahuasca peruana. E para
ter uma visão objetiva de minha experiência com o Santo Daime, falta-me um
conhecimento mais profundo dessas outras leituras.
Há também a questão da DMT (ou do
efeito da substância química do cérebro, do sistema de crenças científico) e de
sua relação com os usos rituais da Ayahuasca (e dos sistemas de crença
tradicionais e religiosos).
Nesse sentido, os estudiosos também se
dividem em três grandes grupos: os que dão ênfase à bebida e à DMT (os biólogos
e os químicos, entre outros); os que dão ênfase aos sistemas de crenças (em
geral, os antropólogos e os historiadores) ; e os “devotos do DMT”, que,
considerando os dois aspectos, elaboram um novo sistema de crenças.
Vejamos cada um desses grupos de
pesquisadores.
Para os que dão
ênfase à DMT, como Ralph Miller (2000), por exemplo, o importante é o papel
psicoativo da bebida:
A Pineal irá produzir DMT em grandes quantidades em
pelo menos dois momentos das nossas vidas: no nascimento e na morte. Talvez ela
prepare a chegada e a partida da alma. Pessoas que experimentam "situações
de quase morte" – vendo luzes fortes, portais, ícones religiosos – relatam
efeitos semelhantes aos das experiências com DMT. As moléculas de DMT são
similares às moléculas da Serotonina e se encaixam nos mesmos receptores do
cérebro. Isto é extraordinário porque, assim como a Serotonina, a DMT é uma
chave específica que naturalmente se encaixa nesta "trava" do
cérebro. Assim, você tem a DMT se encaixando aos receptores do cérebro, o que
produz visões, enquanto as propriedades pró-Serotonina e pró-Dopamina do chá
criam um estado de alerta e receptividade.
Do ponto de vista científico, há várias hipóteses sobre o papel da DMT no
cérebro humano. Uma hipótese é de que esta substância estaria relacionada
com a manifestação da esquizofrenia e dos distúrbios psicóticos. No entanto, ao
se encontrar níveis semelhantes de DMT em sujeitos sadios e em esquizofrênicos,
esta hipótese vem sendo abandonada.
Outra hipótese, postulada por Richard Strassman em seu livro, A Molécula do Espírito, (STRASSMAN,
2001) diz que a DMT é produzida
pela glândula Pineal e está relacionada com experiências de "pico"
(nascimento, experiências de quase-morte, morte etc).
Uma terceira hipótese feita por Callaway (MCKENNA, CALLAWAY, GROB, 1998),
que se relaciona com as duas primeiras, é que a DMT está relacionada com a
regulação do sono, especificamente, na produção das imagens nos sonhos: o sono
REM. Neste caso, se a DMT fosse produzida em excesso poderia ocasionar
alucinações.
Atualmente, várias pesquisas investigam a utilização de medicamentos a base
de DMT para tratamento químico de depressão, neuroses, fobias, síndromes
neurológicas, bem como sua utilização como potencializador da consciência em
processos terapêuticos psicológicos ([7]).
Como dissemos antes, existem também pesquisas que dão mais ênfase ao
contexto que ao aspecto psicoativo. Enquanto
os pesquisadores das áreas biológicas dão um enfoque enquadrado particularmente
aos efeitos químicos da DMT no cérebro, os pesquisadores das áreas clínicas e
psicológicas estudam a mudança nos estados de consciência e de percepção,
distribuindo sua atenção em três fatores: a bebida, o ambiente (setting) e a
intenção (set). A hipótese, denominada em inglês de 'set and setting', formulada
inicialmente por Timothy Leary com LSD nos anos 60, afirma que o conteúdo de
uma experiência com substancia psicoativa é uma resultante da interação desses
três fatores básicos.
Charles S. Grob fez a
mais ampla revisão bibliográfica sobre o Ayahuasca na área da psicologia
clínica e neuro-psiquiatria (METZNER, 2002, p. 195) e considera a hiper-sugestionabilidade como um dos
efeitos psico-químicos, detalhando o aspecto ambiental (setting) em vários
fatores (o papel do líder, do grupo, do local). Ele é um dos pesquisadores que
concluem que “o contexto, o roteiro e o propósito” são mais importantes do que
os efeitos químicos de substância psicoativas (nos processos de “cura” e de
autoconhecimento propiciados pela bebida).
Em relação às
características dos estados de consciência quimicamente alterados pelo
Ayahuasca, Grob aponta: a) Diminuição ou expansão da consciência
reflexiva, com alterações de pensamento, mudanças subjetivas na concentração,
na atenção, na memória e no julgamento podem ser induzidas voluntariamente em
vários níveis de uma mesma experiência. b) Aumento da imaginação visual. Grob
também identifica, dentre as experiências de milhares usuários entrevistados,
várias recorrências psicológicas durante o transe: medo de perder o controle;
resistência do ego (bad trip) e transcendência para estados místicos (entrega);
aumento da expressão emocional - tristeza, alegria, desespero, fé; entre outras
menos freqüentes.
Outra grande contribuição ao estudo psicológico do Ayahuasca é o trabalho
de Benny Shanon, O Conteúdo das visões
da Ayahuasca (2003), em que além de trabalhar um levantamento das
imagens das mirações e da hipótese de aceleração e desaceleração da percepção
do tempo durante o transe, se discute também a pesquisa da mente através do
ayahuasca (e não mais o efeito da ayahuasca na mente humana).
Shanon já havia escrito sobre o Ayahuasca como instrumento de investigação
da mente (in LABATE, 2002; pág. 631), através dos parâmetros teóricos da
psicologia cognitiva. Para ele, há questões fenomenológicas de primeira ordem
(o que está sendo experimentado? ) e de segundo ordem (Há uma ordem e um
sentido no que está sendo experimentado? ).
Em relação às questões fenomenológicas de primeira ordem, Shanon distingue
as questões de conteúdo das de domínio e de estrutura. Assim, felinos, pássaros
e répteis são as imagens mais recorrentes nos transes, seguidos de perto pelos
palácios, tronos e imagens arquitetônicas celestiais. A pesquisa destaca que as
imagens são ‘universais da mente’ (semelhantes aos ‘arquétipos’ de Jung), pois
surgem em indivíduos culturalmente diferentes. Esses conteúdos podem surgir de
diferentes domínios e o encadeamento dessas formas com estes conteúdos forma
estruturas narrativas paralelas aos rituais. E Shanon entrevê, através deste
sistema cognitivo de conteúdos/domínios, os parâmetros estruturais da
consciência e destaca pelo menos quatro aspectos relevantes em relação ao
efeito do Ayahuasca: a percepção do pensamento como uma cognição coletiva, a
indistinção entre o interior e o exterior, e as experiências desindentificação
pessoal e de tempo não-linear.
Desses quatro aspectos relevantes o mais interessante é o que trata de
nossa percepção do tempo. Quando tomam Ayahuasca as pessoas percebem que seus
pensamentos não são individuais, mas sim ‘recebidos em rede’ (a mente como um
rádio); que não existe a distinção entre o sensorial e o sensível; podem se
transformar em animais (jaguares e águias são freqüentes) ou em outras pessoas;
e finalmente percebem o transcorrer do tempo de forma desigual, em que alguns
segundos demoram séculos e horas se sucedem rapidamente e em que alguns
momentos se experimentam a simultaneidade (ou a sensação de eternidade)
temporal. Quando baixamos arquivos no computador, pode-se perceber que alguns segundos
demoram mais que outros, em função do peso do arquivo e da aceleração da
conexão da internet. O que Shanon suspeita é que o mesmo acontece com a mente,
mas só é perceptível sob o efeito do Ayahuasca.
A grande maioria das pesquisas se subdivide entre as que dão ênfase ao
ritual e as que dão ênfase ao efeito cognitivo da bebida. Mas, além das
pesquisas psicológicas, antropológicas, jurídicas e biológicas, há também
várias pesquisas sobre a música, a poesia, as danças do ritual, a arquitetura
dos templos, enfim, toda descrição semiótica dos cultos.
Há também os pesquisadores que advogam uma perspectiva semelhante à dos
adeptos que entendem o Daime como Sacramento, que compreende tanto a concepção
que dá ênfase ao ambiente quanto ao Ayahuasca e à DMT ([8]).
Meu ponto de vista é que os componentes químicos mutagênicos e psicoativos
existentes na dieta dos primeiros humanos influenciou diretamente a rápida
reorganização das capacidades de o cérebro processar informações. Os alcalóides
contidos nas plantas especificamente os compostos alucinógenos como a
psilocibina, a dimetiltriptamina (DMT) e a harmalina podem ter sido os fatores
químicos da dieta que catalisaram o surgimento da auto-reflexão humana. A ação
dos alucinógenos presentes em muitas plantas comuns aumentou nossa atividade de
processamento de informações e nossa sensibilidade ambiental, com isso
contribuindo para a súbita expansão do tamanho do cérebro. Como aconteceu num
estágio posterior desse mesmo processo, os alucinógenos atuaram como catalisadores
no desenvolvimento da imaginação, alimentando a criação de estratagemas
internos e esperanças que podem ter sinergizado o surgimento da linguagem e da
religião. (...) Quais seriam as conseqüências, para a teoria da evolução, de
admitir que alguns hábitos químicos conferem vantagem adaptativa e, portanto,
tornam-se profundamente gravados no comportamento e até mesmo no genoma de
alguns indivíduos? O Alimento dos
Deuses
Com os irmãos McKenna, o caráter
cognitivo das drogas e da experiência psicodélica na contracultura vai se
tornar uma 'etnofarmacologia',
isto é, em um estudo sistemático das tradições de consumo de enteógenos. Com
Terence McKenna (1993, 1994, 1995 e 1996) se estabelece uma associação estratégica entre duas hipóteses
diferentes até então, que se tornaram os cânones do movimento enteógeno: Em
primeiro lugar, a hipótese de que foi através da ingestão de substâncias
químicas psicoativas que os macacos se tornaram conscientes de si, dando início
à evolução da espécie humana. Nesta hipótese, sugere-se que toda nossa
experiência com o sagrado derivou originalmente do consumo de substâncias
químicas.
E depois, a hipótese de
Gaia (James Lovelock e Lynn Margulis) segundo a qual a biosfera da Terra é na
verdade um organismo vivo. De forma que, mais do que
dispositivos de poder para o controle social (as drogas), as substâncias
psicoativas teriam como função primordial a re-ligação dos homens com a
consciência telúrica do planeta.
Mas, o que realmente
chama atenção nas idéias dos irmãos McKenna é a compreensão das plantas
enteógenas no contexto de uma “grande simbiose”. Nesta perspectiva, a simbiose
entre as plantas e os animais na bioesfera da terra não se limita à troca de
oxigênio por gás carbônico ou à produção recíproca de alimento e proteção, mas,
sobretudo, a um projeto maior, no qual as plantas enteógenas cumprem um papel
estratégico modificando o comportamento humano em relação ao meio ambiente. Ou
seja: estamos sendo colonizados e doutrinados pelo mundo vegetal para mudar os
padrões de animais predadores e interagir melhor com toda a vida orgânica no
planeta.
Para nós, essa
‘simbiose’ (entre o homem e o mundo orgânico) realmente existe, mas não é tão
‘grande’ assim, se levarmos em conta a possibilidade de uma simbiose entre o
homem e o reino inorgânico, em que haja uma troca de energia vital orgânica por
consciência temporal inorgânica, como quer Carlos Castaneda.
Nesse caso, a Ayahuasca
além de veículo de uma mensagem do reino vegetal - para alguns a DMT seria uma
mensagem química para nosso cérebro ([9]) -
para reverter o processo de auto-destruição do homem e da vida orgânica, mas
também um meio de realização de uma simbiose com o reino mineral.
Como se sabe, a
psicoatividade oral da DMT depende da inibição das enzinas MAO; e nem a folha
nem o cipó são psicoativos tomados separadamente. E, então, como os índios
descobriram o ‘efeito ayahuasca’? Como os índios descobriram, entre milhares de
plantas, sem nenhum tipo de instrumento técnico ou de conhecimento científico,
que a combinação de duas delas tinha um efeito capaz de provocar o transe, sem
efeitos colaterais nocivos? Para alguns, foram as próprias plantas que
ensinaram os homens.
E esta é questão que
norteia a pesquisa transdisciplinar (METZNER, 2002, 264) em que a experiência
emergente da espiritualidade transborda os limites de todas as tradições
religiosas: o Ayahuasca nos dá saúde, conhecimento, poder espiritual. E
nós? O que estamos dando em troca? Amor e alegria? Aperfeiçoamento
pessoal, dinheiro e trabalho para as instituições responsáveis? Ou você não se
considera em dívida com plantas, nem como pessoas ou instituições?
Há uma evidente mudança
de atitude na maioria das pessoas que tomam Ayahuasca. Cerca de 10%,
aproximadamente, apenas consideram a experiência sem significado para sua vida.
Dos 90% que consideram a experiência relevante, mas da metade não volta ou
participa esporadicamente dos cultos. As instituições calculam, informalmente,
que, em média ([10]), 30% dos que conhecem o
Santo Daime, escolhem este caminho para seu desenvolvimento espiritual e se
fardam. Com passar dos anos, além de uma grande taxa de evasão, a participação
dos rituais se banaliza e o impacto de transformação do começo perde seu poder,
levando o adepto ou a novos níveis de esforço e aplicação para seguir com seu
desenvolvimento ou a uma adaptação conformistas em relação às instituições
religiosas e à própria sociedade em geral. Entre as linhas que seguem o
Padrinho Sebastião, houve um momento em que a vida comunitária na Amazônia era
estimulada como uma forma de continuar o processo de desprogramação da vida
social, mas, atualmente, todas as instituições que trabalham com o Santo Daime
dão ênfase a integração social de seus participantes.
Em minha experiência
pessoal, observei que os dois primeiros anos de doutrina são de experiências
transpessoais (mirações como as descritas e classificadas por Shanon); em
seguida, o adepto passa por um período de experiência reeducativas do ponto de
vista interpessoal (‘passagens’ que envolvem a projeção dos pais em padrinhos e
madrinhas, que envolvem conflitos e amizades com outros participantes, amores
platônicos e reais para o aprendizado de suas preferências e afinidades); e,
após dez anos, caso tenha se aplicado no estágio anterior, em um período de
desenvolvimento pessoal, em que a tônica é o aperfeiçoamento ético subjetivo,
em que as conquistas são graduais e precisam ser bem consolidadas. Em minha
opinião, boa parte dos adeptos da doutrina do Santo Daime chega apenas ao
segundo nível de desenvolvimento, ficando trabalhando situações recorrentes,
enganchado na rede de suas relações interpessoais ([11]).
A chave para o
desenvolvimento contínuo, e na superação de seus diferentes estágios, talvez
esteja tanto na pergunta formulada por Metzner (o que damos em troca do
recebemos das plantas de poder?) como da idéia contida na palavra ‘Daime’. A
retribuição da generosidade divina com a generosidade humana em um forte
sentimento de agradecimento. “Já que tudo me foi dado, vou me dar todo também”
– essa idéia é que faz vigorar o sentido do Sacramento, não é mais a planta, a
bebida ou a doutrina que é sagrada, mas “Eu sou” (um em conjunto com a
divindade).
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
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org.br/portugues /downloads/ 05.pdf >
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Alucinações Reais' Rio de Janeiro: Record/Nova Era, 1993.
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Deuses Rio de Janeiro: Record/Nova Era, 1995.
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cultura arcaica Rio de Janeiro: Record/Nova Era, 1996.
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STRASSMAN, Richard. DMT : the spirit molecule : a
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Press, InnerTraditions, 2001. Ebook, disponivel em http://geocities.
yahoo.com. br/encantador_ de_serpentes/ ebook___DMT. pdf
([1]) Marcelo Bolshaw Gomes é jornalista, doutor em Ciências Sociais e
professor de Comunicação da UFRN, se fardou no São João de 1986 no Céu do Mar
(Rio de Janeiro) e já participou de diversas igrejas, inclusive na Cinco Mil
(Rio Branco) e a Igreja do Céu do Mapiá. Atualmente, reside em Natal e é
fardado da Igreja de Canoa Quebrada (CE).
([2]) www.ayahuasca. com e http://yage. net/
([3]) O interessado pode consultar toda legislação
brasileira sobre a ayahuasca no site da federação de centros livres em: <http://www.ayahuasc
abrasil.org/ index.php? op=legislacao>
([4]) <http://www.santodai
me.it/Library/ LAW/0_LAW. htm>
([5]) + informação sobre o assunto no site oficial do
CEFLURIS <www.santodaime. org>; na Revista Virtual A ARCA DA UNIÃO
www.arcadauniao. org, e no site do
Núcleo de Estudos Interdisciplinares de Psicoativos < www.neip.info >.
([6]) http://www.mestreir
ineu.org/
[7] http://dmt.lycaeum. org/
e www.erowid.org/ chemicals/ dmt/dmt.shtml
([8]) Para entender as semelhanças e divergências entre as duas concepções (o
daime como sacramento e a concepção dos ‘devotos da DMT’, veja-se o artigo Eram os deuses Alcalóides? de Alex
Polari, em: <http://www.santodai me.org/arquivos/
alex1.htm >
([9]) Jeremy Narby, por exemplo, em seu livro A
Serpente Cósmica, ainda sem tradução para português, compara a dupla hélice do
DNA às duas serpentes do símbolo do Caduceu e advoga a tese de que a DMT é a
chave para o processo de evolução humana (o “programa lógico do mundo vegetal
para rodar no cérebro humano”) do ponto de vista da biologia molecular.
([10]) Dados informais sem levar em tempo os locais e os diferentes períodos de
tempo da adesão à doutrina.
([11]) É claro que esses são parâmetros absolutamente
subjetivos (mesmo que calcados na observação de outras pessoas além de mim), de
quem acha que permaneceu se desenvolvendo dentro da doutrina daimista durante
mais de 20 anos. As pesquisas com usuários de longo prazo (desenvolvidas pelo
Projeto Hoasca da UDV, entre outros) se limitam ao estudo da inexistência de
danos físicos e na atitude de integração social propiciada pela bebida. Ninguém
até o momento estudou variáveis menores como mudanças na alimentação ou
inibição progressiva de comportamento sexual, e muito menos, é claro, variáveis
subjetivas relativas ao desenvolvimento ético e espiritual.
Parabéns. A análise dos vários aspectos envolvendo o Santo Daime e o ahayuasca são de uma clareza impressionante. Se tiver outros artigos dessa natureza peço para me enviar. Como usuário da ahayuasca em rituais xâmanicos senti os seus benefícios, porém fico triste ao perceber quanto preconceito existe quando comento sobre o tema.
Um abraço
Eduardo (são Paulo/S.P)
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I am from England and also am speaking English, give please true I wrote the following sentence: "Airline tickets wholesaler specializing in unsold airline seats at bargain rates and last minute special fares offered by airlines."
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